Por Ofertas de Emprego em Aconselhamento 14-05-2026
Vamos ser honestos sobre uma coisa que toda a gente em Portugal sabe mas que raramente aparece escrita num artigo sobre emprego, a cunha existe, é real, e ainda funciona.
Não estamos a falar de nepotismo descarado nem de contratar alguém claramente incompetente só porque é da família. Estamos a falar do mecanismo muito humano de, quando há uma vaga, perguntar primeiro a alguém de confiança se conhece uma boa pessoa para o lugar. Antes de publicar o anúncio. Antes de rever currículos. Antes de marcar entrevistas.
Isto acontece em todo o mundo, mas em Portugal tem uma dimensão particular. O tecido empresarial português é composto maioritariamente por PMEs, empresas onde as decisões de contratação são tomadas por uma ou duas pessoas, muitas vezes o próprio patrão, e onde a confiança pessoal pesa tanto quanto o currículo. Neste contexto, conhecer alguém que conhece alguém não é batota. É simplesmente como o mercado de trabalho funciona.
O problema é que este sistema deixa de fora quem não tem essa rede. E esse grupo é maior do que parece, quem está a entrar no mercado de trabalho pela primeira vez, quem vem de outro país ou região, quem mudou de área, ou quem simplesmente passou anos focado no trabalho e nunca investiu em construir relações profissionais fora da sua empresa.
A boa notícia é que essa rede pode ser construída. Não de um dia para o outro, mas de forma consistente e sem teres de fingir que és uma pessoa que não és.
Há um dado que circula há anos nos meios de recrutamento, uma parte significativa das vagas de emprego nunca chega a ser publicada. Os números variam consoante o estudo e o sector, mas a ideia central mantém-se, muitos empregos são preenchidos antes de existir um anúncio, ou através de candidaturas espontâneas que chegaram na altura certa, ou por recomendação direta de alguém dentro da empresa.
Em Portugal, onde as redes de confiança têm um peso cultural muito forte nas decisões de negócio, este fenómeno é especialmente pronunciado. Uma empresa de 15 pessoas que precisa de contratar um comercial não vai necessariamente publicar uma vaga. Vai perguntar ao gerente da empresa parceira se conhece alguém. Vai mencionar ao contabilista que há uma abertura. Vai lembrar-se daquele candidato que mandou o CV há seis meses e que ficou bem na memória.
Isto não significa que os anúncios de vagas de emprego não valham a pena. Valem, e muito. Mas significa que depender exclusivamente deles para encontrar emprego é ignorar uma fatia enorme do mercado.
Há uma distinção importante que vale a pena fazer.
A cunha clássica, no sentido mais literal, é quando entras num processo de seleção com vantagem porque tens uma relação com quem decide, independentemente das tuas qualificações. É isto que irrita as pessoas, com razão.
O networking é diferente. É construir relações profissionais genuínas ao longo do tempo, de forma que, quando existe uma oportunidade, o teu nome vem à cabeça de alguém que te conhece e te respeita pelo teu trabalho. A diferença está na substância: na cunha pura, a relação substitui a competência. No networking, a relação amplifica-a.
A maior parte das pessoas que consegue emprego através de contactos não foi escolhida apesar de ser menos competente. Foi escolhida porque, entre candidatos igualmente competentes, a recomendação de alguém de confiança inclina a balança. É assim que funciona, e não há nada de errado nisso.
A ideia de “fazer networking” assusta muita gente. Evoca imagens de eventos cheios de desconhecidos com crachás, conversas superficiais sobre sinergias e troca de cartões que acabam no fundo de uma gaveta. É compreensível.
Mas construir uma rede de contactos profissionais não tem de ser assim. Começa com o que já tens.
Começa pelos contactos que já existem. A tua rede atual é maior do que imaginas. Ex-colegas de trabalho, professores, colegas de curso, pessoas com quem trabalhaste em projetos pontuais, antigos clientes ou fornecedores. A maioria destas pessoas já te conhece e já tem uma opinião formada sobre ti. São o ponto de partida mais natural e mais eficaz.
O erro comum é aparecer só quando se precisa de ajuda. Se o último contacto que tiveste com um ex-colega foi há três anos e agora envias uma mensagem a dizer que estás à procura de emprego, a relação não tem a temperatura necessária para produzir resultados. A rede constrói-se antes de ser necessária.
Mantém contacto de forma simples e genuína. Não precisas de ligar a toda a gente todos os meses. Basta não desaparecer completamente. Comentar um post no LinkedIn, enviar uma mensagem quando vês uma notícia relevante para a área de alguém, aparecer num evento do sector de vez em quando. São gestos pequenos que mantêm a relação viva sem parecerem forçados.
Sê específico quando precisas de ajuda. Quando chega o momento de ativar a rede, evita a mensagem genérica “estou à procura de emprego, se souberes de alguma coisa avisa”. É difícil de responder e coloca todo o trabalho do lado de quem recebe.
Sê concreto, “Estou à procura de uma posição na área de gestão de projeto, preferencialmente em empresas de tecnologia ou consultoria. Conheces alguém que valha a pena falar?” Uma pergunta específica gera uma resposta útil. Uma vaga pedido de ajuda gera um silêncio desconfortável.
Não peças o emprego, pede a conversa. Uma das abordagens mais eficazes no networking é pedir uma conversa informal a alguém cuja carreira admiras ou que trabalha numa empresa que te interessa. Não para pedir emprego diretamente, mas para perceber como é trabalhar naquela área, que competências são mais valorizadas, como foi o percurso da pessoa. A maioria das pessoas gosta de falar sobre si própria e sobre o que faz. E uma conversa genuína fica na memória de uma forma que um CV nunca consegue.
O LinkedIn tem um papel crescente no mercado de trabalho português, especialmente em sectores como tecnologia, consultoria, marketing e finanças. Mas a maioria das pessoas usa-o de forma passiva, criam o perfil, adicionam a experiência profissional, e esperam que aconteça alguma coisa. Não costuma acontecer.
Para o LinkedIn funcionar como ferramenta de networking, o perfil tem de estar completo e atualizado, mas isso é apenas o ponto de partida. O que realmente move o perfil é a atividade: partilhar perspetivas sobre a tua área, comentar publicações de pessoas que respeitas, ligar-te a pessoas com quem tens uma ligação real e não apenas a desconhecidos em massa.
Um comentário bem escrito numa publicação relevante da tua área pode fazer o teu nome aparecer no campo de visão de pessoas que nunca teriam chegado ao teu perfil de outra forma. Não é magia, é visibilidade. E em Portugal, onde o LinkedIn ainda é subutilizado em muitos sectores, há espaço real para te distinguires com pouco esforço relativo.
Se estás a começar do zero, seja porque és recém-licenciado, porque mudaste de área, ou porque simplesmente nunca investiste nestas relações, a construção demora mais. Mas há formas de acelerar.
Os cursos de formação profissional são um dos melhores lugares para construir contactos de qualidade, especialmente porque partilhas o contexto com pessoas que têm interesses e objetivos semelhantes aos teus. O mesmo vale para associações sectoriais, grupos de profissionais da tua área, ou eventos ligados ao mercado de trabalho.
As candidaturas espontâneas bem feitas, dirigidas a uma pessoa específica e não a um email genérico de recursos humanos, também abrem portas com mais frequência do que se pensa. Uma mensagem direta ao responsável da área onde queres trabalhar, curta, específica e demonstrando que conheces a empresa, tem muito mais impacto do que um CV enviado para o email de contacto geral.
E há algo que muita gente subestima, pedir referências às pessoas certas. Se trabalhaste com alguém que te estima profissionalmente e essa pessoa tem contactos na área para onde queres ir, um pedido direto e honesto pode ser o atalho mais eficaz que tens disponível.
Construir uma rede de contactos não garante emprego. Há pessoas com redes excelentes que demoram meses a encontrar o lugar certo, e há pessoas sem qualquer rede que conseguem a vaga certa na primeira candidatura.
O que a rede faz é aumentar as hipóteses. Faz com que o teu nome apareça em conversas onde de outra forma não estaria. Faz com que vagas que nunca chegariam a um anúncio cheguem até ti. Faz com que haja alguém disposto a dizer “conheço essa pessoa, é de confiança” quando o teu nome surge numa reunião.
Em Portugal, onde as relações de confiança têm um peso enorme nas decisões profissionais, isso não é pouca coisa. É, muitas vezes, a diferença.